“Quero mostrar que todo mundo consegue”: atleta de Santa Maria busca vaga no CrossFit Games adaptado nos EUA

“Quero mostrar que todo mundo consegue”: atleta de Santa Maria busca vaga no CrossFit Games adaptado nos EUA

Fotos: Vinicius Becker (Diário)

Ana Paula começou no esporte incentivada pela família e hoje sonha em competir entre os melhores do mundo

O Rio Grande do Sul pode ter, pela primeira vez, uma representante na final adaptada do CrossFit Games. Aos 26 anos, Ana Paula Figueira, moradora de Santa Maria, está entre as classificadas para a semifinal do torneio e busca uma vaga na etapa final, que acontece no fim de julho, nos Estados Unidos.

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Natural de Cachoeira do Sul, Ana está no 6º semestre do curso de Educação Física da UniCesumar e atualmente é proprietária da Titanium Crosstraining. Ela descobriu no CrossFit não apenas um esporte, mas também um espaço de superação pessoal. A atleta tem má formação na mão esquerda, condição identificada após a mãe ter sido diagnosticada com rubéola no primeiro trimestre da gravidez, e encontrou na modalidade adaptada uma forma de desafiar os próprios limites.

— É um marco na minha vida conseguir competir e me desafiar na minha própria categoria. Quando a gente vê pessoas parecidas com a gente fazendo, a gente percebe que consegue também. Quero mostrar para o mundo inteiro que todo mundo consegue — afirma.

Ela conta que conheceu o CrossFit há cerca de seis anos e começou a praticar há cinco. A aproximação veio pela família, que buscava uma atividade que reunisse condicionamento físico, força e resistência. Antes disso, ela já tinha uma trajetória ligada ao esporte. Foi atleta de ginástica, praticou futsal e natação, experiências que ajudaram especialmente na adaptação aos movimentos ginásticos da modalidade.

— A minha família teve a brilhante ideia de entrar nesse mundo do CrossFit e eu embarquei junto. No fim, acabei assumindo tudo e seguindo essa vida. No CrossFit, a parte da ginástica sempre me chamou muito atenção, já fiz vários cursos voltados para isso também.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Como funciona o CrossFit Games

Foto: CrossFit Games (Divulgação)

O CrossFit Games é considerado o principal campeonato mundial da modalidade e busca definir os atletas “mais condicionados do mundo” por meio de provas que combinam levantamento de peso, ginástica, resistência cardiovascular e exercícios de alta intensidade. Criado em 2007, o torneio reúne competidores de diferentes países e conta com categorias individuais masculina e feminina, equipes, masters (voltadas para atletas de faixas etárias mais altas) e adaptadas, destinadas a atletas com deficiência física. Dentro da divisão adaptada, os competidores são separados conforme o tipo de limitação ou adaptação necessária para a execução dos movimentos.

O caminho até a etapa final começa pelo “Open”, fase inicial do campeonato em que atletas do mundo inteiro realizam provas divulgadas semanalmente pela organização do CrossFit Games. Durante três semanas, os participantes recebem provas divulgadas simultaneamente para todos boxes de CrossFit do mundo inteiro. Os atletas gravam a execução dos exercícios, enviam os vídeos para avaliação e entram em um ranking global.

Foi justamente nessa fase que Ana conquistou um resultado que aumentou ainda mais sua confiança.

— Quando comecei a fazer o Open, eu não imaginava que ficaria entre as 10 melhores do mundo. Hoje, na minha categoria, tem só mais uma brasileira classificada — explica.

Agora, ela encara uma nova etapa classificatória, marcada para 14 de maio. Caso avance, garantirá vaga para a final presencial do CrossFit Games, que acontece de 24 a 26 de julho de 2026 em San Jose, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

A categoria adaptada

Hildon Carvalho (comprometimento inferior), Elaine Rocco (comprometimento superior), Fabrício Taveira (cadeira de rodas) e Creusa Angélica (baixa estatura) são alguns dos nomes brasileiros que se destacam na categoria e já participaram do CrossFit GamesFotos: Instagram/Redes Sociais (Divulgação)

Ana compete na categoria “dois pontos de contato” (“2 Points of Contact - Upper”), voltada para atletas que possuem funcionalidade nos dois braços, mas apresentam alguma deficiência física nos membros superiores que exige adaptações durante as provas. No caso dela, os movimentos são realizados com auxílio de ganchos e straps (ataduras geralmente feitas de lona ou couro), que ajudam na pegada e sustentação. Há também a categoria “um ponto de contato” (“1 Point of Contact - Upper”), destinada a atletas que possuem funcionalidade em apenas um braço ou mão, seja por amputação ou limitação severa do membro superior.

Além disso, também existem divisões criadas para atletas com diferentes tipos de deficiência física, neurológica, visual ou intelectual. Entre elas estão as categorias para atletas com comprometimento nos membros inferiores, separadas entre amputações acima ou abaixo do joelho e limitações consideradas leves.  O campeonato ainda possui categorias voltadas para atletas com deficiências neuromusculares em diferentes níveis, atletas com deficiência visual, pessoas com nanismo e divisões específicas para deficiência intelectual, incluindo, a partir de 2025, categorias separadas para atletas com e sem condições cromossômicas associadas.

— Na minha categoria, eu uso ganchos e straps para conseguir me pendurar, puxar a barra e executar os movimentos. Existem outras divisões também, como atletas com apenas um ponto de contato, cadeirantes e amputados. É um universo muito grande — conta.

Ana usa o gancjo para ficar suspensa nas barras e executar os movimentos de levantamento de pesoFoto: Vinicius Becker (Diário)

Segundo ela, entender o próprio corpo foi fundamental antes de decidir competir oficialmente.

— Ser uma pessoa adaptada envolve muita coisa. Precisei entender onde eu conseguia, onde precisava adaptar e como funcionava meu corpo dentro do esporte.

O uso dos acessórios surgiu ainda na infância, graças ao incentivo da mãe, que sempre procurou maneiras de fazer com que a filha participasse das atividades normalmente. Hoje, os equipamentos fazem parte da rotina da atleta, que vê no esporte uma ferramenta de inclusão e representatividade.

— Ela nunca me colocou numa bolha. Sempre deixou eu brincar, me pendurar, tentar as coisas. Como eu me machucava muito usando o punho, ela começou a pesquisar na internet até encontrar uma adaptação que funcionasse. Tem muita gente que tem medo ou acha que não consegue (praticar esportes). Então, quando a gente mostra que é possível, isso motiva outras pessoas também.

O strap é outro acessório que ajuda a atleta a prender a mão em barras, por exemploFoto: Vinicius Becker (Diário)


Treinos intensos e rotina puxada

Foto: Vinicius Becker (Diário)

A preparação para a semifinal exige dedicação diária. Ana mantém os treinos tradicionais do box, mas também segue planilhas específicas para aprimorar movimentos e aumentar cargas.

— Estou tentando fazer dois treinos por dia. Claro que às vezes a rotina não ajuda muito, porque preciso conciliar faculdade, trabalho e treinos, mas faz parte.

Ela conta que começou a intensificar a preparação ainda em janeiro, quando participou da primeira competição na categoria RX, considerada uma das mais avançadas do CrossFit.

 — Foi muito desafiador porque tinha mais peso e movimentos mais difíceis. Mas aquilo me mostrou que eu podia continuar evoluindo.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Inspiração e comunidade

Entre as referências dentro da modalidade, Ana cita atletas adaptados que já disputam o CrossFit Games há alguns anos. Um deles é o brasileiro Matheus Damião, que inclusive ajudou ela no processo de inscrição e adaptação às etapas da competição.

— Ele foi me ensinando como funcionavam as classificações e toda essa parte burocrática. Isso diz muito sobre a comunidade do CrossFit.

Além da competição, ela destaca o acolhimento encontrado no esporte e incentiva quem ainda tem receio de começar.

— É experimentando, é começando aos poucos, sem querer chegar no limite máximo logo de início, porque tudo tem um processo. Às vezes ele pode ser curto, longo ou mais lento, mas o importante é continuar. Cada passo conta. Pode ser um passinho de tartaruga ou um passinho de coelho, mas ir evoluindo aos poucos já faz toda a diferença. É um esporte que envolve o corpo todo, traz desafio, acolhimento e uma comunidade muito unida. Cada um cuida de si, mas também cuida do outro. E sempre tem um coach ali para ajudar. Ninguém fica sozinho.

Sonho internacional

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Enquanto aguarda a semifinal, Ana já corre atrás da documentação necessária para uma possível viagem aos Estados Unidos. A expectativa de competir internacionalmente vem acompanhada da ansiedade, mas ela garante, porém, que o principal objetivo vai além da competição.

Estou com mil borboletas no estômago. Muito animada, mas também nervosa. Só de pensar em estar lá, conhecendo atletas que admiro e representando tantas pessoas, já é algo gigantesco. Quero que as pessoas vejam que o esporte é para todos.

Ajude a Ana

Para ajudar a custear a viagem aos Estados Unidos, Ana Paula também iniciou a venda de camisetas personalizadas. O valor é de R$ 99,90 por unidade ou duas por R$ 179,90. A arrecadação será destinada às despesas com a competição, documentação e deslocamento para a Califórnia. Interessados em colaborar podem adquirir as camisetas pelo link.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


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